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Hepatectomia robótica em São Paulo

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Dr. Mateus Antunes Nogueira · CRM‑SP 97.070 · Cirurgião do Aparelho Digestivo (RQE 46345) · médico do esporte e nutrólogo (pós‑graduado)

Procedimento · Fígado · Técnica robótica

Hepatectomia é o nome da retirada cirúrgica de uma parte do fígado. Ela é feita quando existe um tumor no órgão — nascido ali ou vindo de outro lugar do corpo — e quando sobra fígado saudável suficiente para o organismo continuar funcionando. Explico aqui o que a operação envolve, por que a via robótica ajuda em determinadas localizações e o que esperar da recuperação.

Dr. Mateus Antunes Nogueira
Jardim do consultório, São Paulo

O que é a hepatectomia

O fígado ocupa a parte superior direita do abdome, logo abaixo do diafragma, e é o maior órgão sólido do corpo. Ele filtra o sangue que vem do intestino, produz a bile que ajuda na digestão das gorduras e fabrica proteínas essenciais. Diferentemente da maioria dos órgãos, ele tem uma capacidade notável de regeneração: a parte saudável que permanece cresce e assume as funções do todo.

Por dentro, o fígado não é uma massa homogênea. Ele é dividido em oito segmentos, cada um com o seu próprio ramo de artéria, de veia porta e de via biliar. É essa arquitetura que permite retirar um pedaço do órgão preservando o suprimento de sangue e a drenagem da bile do restante. Retirar um segmento chama-se segmentectomia; retirar todo o lado direito ou esquerdo, hepatectomia maior.

Duas coisas definem se uma ressecção é possível: a localização do tumor em relação aos vasos principais e o volume de fígado que vai sobrar — o chamado fígado remanescente. Quando o remanescente é pequeno demais, existem estratégias para fazê-lo crescer antes da operação, como a embolização da veia porta do lado que será retirado ou a hepatectomia em dois tempos.

O objetivo técnico da operação é retirar todo o tumor com uma margem de tecido saudável ao redor — o que os relatórios de patologia chamam de ressecção R0. É por isso que a precisão da dissecção junto aos vasos não é um detalhe estético: ela é parte do resultado oncológico.

Quando a hepatectomia está indicada

A indicação vem da avaliação conjunta do tumor, do fígado e do paciente, discutida em equipe multidisciplinar com o oncologista clínico e o radiologista.

  • Tumor primário do fígado

    Lesões que nascem no próprio órgão, como o carcinoma hepatocelular, quando são passíveis de retirada e o restante do fígado tem condições de assumir as funções.

  • Metástase de câncer colorretal

    Lesões que chegaram ao fígado a partir do intestino grosso ou do reto. Nessa situação a ressecção faz parte de um tratamento com objetivo de controle prolongado da doença, associado à quimioterapia.

  • Tumores das vias biliares

    Alguns colangiocarcinomas intra-hepáticos e tumores da vesícula exigem ressecção hepática associada à retirada dos gânglios linfáticos da região.

  • Lesões benignas selecionadas

    Adenomas com risco de sangramento ou de transformação e lesões grandes que causam sintomas podem ter indicação cirúrgica, avaliada individualmente.

Onde a via robótica faz diferença na cirurgia do fígado

A cirurgia robótica é uma modalidade minimamente invasiva regulamentada pela Resolução CFM nº 2.311/2022. No fígado, o desafio técnico é operar rente a vasos de grosso calibre, controlando o sangramento durante a secção do parênquima — o tecido do órgão. É exatamente aí que a estabilidade dos instrumentos conta.

  • Visão tridimensional ampliada das estruturas vasculares e biliares dentro do fígado, com controle da câmera pelo próprio cirurgião.
  • Instrumentos articulados que permitem trabalhar em ângulos fechados, sobretudo nos segmentos posteriores e superiores, os de acesso mais difícil.
  • Filtro de tremor e escala de movimento ajustável durante a dissecção junto à veia cava e às veias hepáticas.
  • Menor taxa de conversão para cirurgia convencional em comparação com a laparoscopia, nas metanálises de estudos pareados citadas ao final da página.
  • A indicação da via é individual: tumores muito volumosos, invasão vascular ou cirurgias prévias no andar superior do abdome podem tornar a via convencional a escolha mais segura.

Como a cirurgia é feita

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    1 · Anestesia e posicionamento

    O procedimento é feito sob anestesia geral. O posicionamento na mesa varia conforme o segmento do fígado a ser retirado, e a equipe de anestesia controla a pressão venosa para reduzir o sangramento durante a secção do órgão.

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    2 · Acesso e inventário da cavidade

    Por pequenas incisões, a câmera entra no abdome e toda a cavidade é examinada. Um ultrassom colocado diretamente sobre o fígado mapeia a lesão e a sua relação com os vasos — é o exame mais preciso disponível nesse momento.

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    3 · Controle vascular

    Os vasos que irrigam a parte do fígado a ser retirada são identificados e controlados. Esse tempo define a linha por onde o órgão será seccionado.

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    4 · Secção do parênquima

    O tecido do fígado é dividido na linha planejada, com selamento dos pequenos vasos e ductos biliares encontrados no caminho. É a etapa mais delicada da operação.

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    5 · Retirada da peça e revisão

    A parte retirada é removida por uma das incisões, dentro de um invólucro protetor. A superfície de corte é revisada para sangramento e vazamento de bile antes do fechamento.

Robótica, laparoscópica ou convencional na cirurgia do fígado

A comparação abaixo reúne o que as metanálises de estudos pareados descrevem. Nenhuma dessas propriedades é promessa de resultado individual: a via é escolhida caso a caso.

Tabela 1. Robótica, laparoscópica ou convencional na cirurgia do fígado
CritérioRobóticaLaparoscópicaConvencional
Acesso ao abdomePequenas incisões com instrumentos articulados e visão tridimensional.Pequenas incisões com instrumentos retos.Incisão ampla no andar superior do abdome, com afastadores.
Sangramento durante a operaçãoMenor do que na laparoscopia nos estudos pareados agregados.Referência de comparação nas metanálises.Depende da extensão da ressecção e do controle vascular obtido.
Conversão para cirurgia convencionalMenor taxa de conversão, com a diferença mantida nas hepatectomias maiores.Referência de comparação.Não se aplica.
Margem livre de tumor (R0)Taxa de R0 maior do que a laparoscópica nos estudos pareados agregados.Referência de comparação nas metanálises.Padrão histórico de referência.
Lesões nos segmentos posteriores e superioresMenos sangramento, menos transfusões e menor conversão nessa localização específica.Tecnicamente difícil pelo ângulo dos instrumentos retos.Acesso obtido por incisão ampla e mobilização do fígado.
Tempo de cirurgiaVariável; mais curto que a laparoscopia nos segmentos difíceis, mais longo em ressecções simples.Intermediário, variável com a dificuldade da lesão.Habitualmente o mais curto.

Dados agregados de literatura; a conversão para cirurgia convencional durante o procedimento é sempre uma possibilidade prevista e é uma decisão de segurança, não uma falha.

Riscos e limites da operação

A cirurgia do fígado tem duas preocupações principais: o sangramento durante a ressecção e a capacidade do fígado remanescente de sustentar o organismo depois dela. Os dois pontos são avaliados antes da operação, com exames de imagem que medem o volume do fígado que vai sobrar e exames de sangue que estimam a reserva hepática.

As complicações mais relevantes são o vazamento de bile pela superfície de corte, que pode exigir drenagem; a coleção de líquido ou infecção no espaço deixado pela ressecção; e a insuficiência do fígado remanescente, situação mais rara e mais grave, que ocorre sobretudo em ressecções extensas ou em fígados já doentes por cirrose ou por quimioterapia prolongada. Nenhum procedimento tem resultado assegurado.

Há situações em que a ressecção não é o melhor caminho, e dizer isso é parte do trabalho: doença disseminada além do fígado, envolvimento dos vasos principais que impede uma margem adequada, reserva hepática insuficiente mesmo após tentativa de aumentar o remanescente, ou condições clínicas que tornem o risco maior que o benefício. Nesses casos existem alternativas — tratamento sistêmico, ablação, quimioembolização — que são discutidas na mesma reunião multidisciplinar.

A recuperação

O tempo de internação varia com a extensão da ressecção. Retiradas menores, feitas por via minimamente invasiva, costumam permitir alta em poucos dias; hepatectomias maiores exigem observação mais prolongada, com acompanhamento diário dos exames que mostram como o fígado remanescente está trabalhando.

A dor após a via robótica costuma ser controlada com medicação simples, justamente porque não há incisão ampla nem afastadores comprimindo a parede do abdome. Levantar da cama e caminhar cedo faz parte do tratamento e reduz o risco de complicações respiratórias e de trombose.

A regeneração do fígado começa nos primeiros dias e continua por semanas. Não há dieta restritiva permanente na maioria dos casos; as orientações alimentares e de retorno ao esforço físico são individualizadas na consulta. Quando a ressecção fez parte do tratamento de um câncer, o seguimento com exames de imagem e o acompanhamento com o oncologista clínico continuam de acordo com o plano da equipe.

Onde a cirurgia é realizada

A hepatectomia exige centro cirúrgico com plataforma robótica, ultrassom intraoperatório, banco de sangue e unidade de terapia intensiva. Opero nos hospitais abaixo, em São Paulo, todos com sistema robótico da Vinci Xi disponível.

  • Hospital Sírio-Libanês

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • Hospital Vila Nova Star

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • HCor

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • Hospital São Camilo Pompeia

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • Hospital São Luiz Morumbi

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • Hospital São Luiz Itaim

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

Consultório: Oxy Recovery — Av. República do Líbano, 577, Jardim Paulista, São Paulo.

Perguntas frequentes

É possível viver bem depois de retirar parte do fígado?

Sim. O fígado tem capacidade de regeneração, e a parte saudável que permanece tende a assumir as funções do órgão ao longo das semanas seguintes. O que define a segurança da operação é justamente o volume e a qualidade do fígado que vai sobrar, medidos antes da cirurgia.

Metástase no fígado tem indicação de cirurgia?

Em muitos casos, sim — sobretudo quando a lesão veio de um câncer do intestino grosso ou do reto. A ressecção das metástases hepáticas faz parte de um plano de tratamento com objetivo de controle prolongado da doença. A avaliação é sempre multidisciplinar e considera o número, a localização e a resposta ao tratamento sistêmico.

E se o fígado que vai sobrar for pequeno demais?

Existem estratégias para aumentá-lo antes da ressecção, como a embolização da veia porta do lado que será retirado ou a hepatectomia em dois tempos. Uma coorte internacional de 510 pacientes com metástases inicialmente consideradas irressecáveis mostrou que essa estratégia é viável, com sobrevida global mediana de 39 meses.

A via robótica é melhor que a laparoscópica para o fígado?

Não é uma questão de melhor ou pior em abstrato. As metanálises de estudos pareados descrevem menos sangramento, menor taxa de conversão para cirurgia convencional e maior taxa de margem livre com a via robótica, com a vantagem mais evidente nas lesões de segmentos de acesso difícil e nas ressecções maiores. Em lesões simples e superficiais, a laparoscopia resolve muito bem.

Quanto tempo depois da cirurgia posso voltar a trabalhar?

Depende da extensão da ressecção, do tipo de trabalho e da sua evolução. Por serem incisões pequenas, a via robótica costuma permitir retorno mais precoce a atividades leves. Combino essa expectativa individualmente na consulta, em vez de trabalhar com um prazo genérico.

O que significa margem livre, ou R0?

Significa que o patologista, ao examinar a peça retirada, encontrou tecido saudável em toda a borda ao redor do tumor — ou seja, a lesão foi removida por inteiro, com uma faixa de segurança. É um dos indicadores mais importantes do resultado oncológico de uma ressecção.

Fundamentação científica

As afirmações desta página são fundamentadas em literatura científica indexada no PubMed. Abaixo, as fontes e o que cada uma sustenta.

  1. [1]

    Robotic versus laparoscopic hepatectomy: meta-analysis of propensity-score matched studies.

    Wang P, et al., BJS Open, 2025

    Fundamenta: Metanalise de 26 estudos comparativos com pareamento por escore de propensao (9.355 pacientes): a hepatectomia robotica associou-se a menor sangramento, menor taxa de conversao para cirurgia aberta e maior taxa de ressecao com margem livre (R0) do que a hepatectomia laparoscopica, com a vantagem mantida nas hepatectomias maiores e de maior dificuldade tecnica.

    PubMed (PMID 40164991)DOI 10.1093/bjsopen/zrae141

  2. [2]

    Robotic versus laparoscopic liver resection for posterosuperior segments: a systematic review and meta-analysis.

    Liang B, et al., HPB (Oxford), 2024

    Fundamenta: Revisao sistematica com metanalise de seis estudos (2.289 pacientes) sobre lesoes nos segmentos posterossuperiores do figado, os de acesso mais dificil: a via robotica teve menor sangramento, menos transfusoes, menor taxa de conversao e tempo cirurgico mais curto do que a laparoscopica. Fundamenta a explicacao de que a vantagem da via robotica aparece sobretudo nas localizacoes de acesso dificil.

    PubMed (PMID 38955633)DOI 10.1016/j.hpb.2024.06.003

  3. [3]

    Laparoscopic versus open resection of hepatocellular carcinoma in patients with cirrhosis: meta-analysis.

    Kabir T, et al., Br J Surg, 2021

    Fundamenta: Metanalise de 11 estudos (1618 pacientes) com cirrose e carcinoma hepatocelular indica que a ressecao hepatica laparoscopica esta associada a melhores desfechos perioperatorios, com menor sangramento, menos complicacoes e menor tempo de internacao.

    PubMed (PMID 34757385)DOI 10.1093/bjs/znab376

  4. [4]

    Laparoscopic Versus Open Major Hepatectomy for Hepatocellular Carcinoma: A Meta-Analysis.

    Chen K, et al., Surg Laparosc Endosc Percutan Tech, 2018

    Fundamenta: Metanalise de 8 estudos (780 pacientes) indica que a hepatectomia maior laparoscopica para carcinoma hepatocelular pode ser realizada com seguranca semelhante a aberta, associada a menor sangramento e menor morbidade pos-operatoria, sem diferenca em margem ou sobrevida de longo prazo.

    PubMed (PMID 30180140)DOI 10.1097/SLE.0000000000000567

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Especialidade registrada no CREMESP: Cirurgia do Aparelho Digestivo (RQE 46345). Conteúdo informativo; não substitui consulta médica. Nenhum procedimento tem resultado garantido.

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