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Câncer de fígado e metástase hepática: quando a lesão é operável

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Dr. Mateus Antunes Nogueira · CRM‑SP 97.070 · Cirurgião do Aparelho Digestivo (RQE 46345) · médico do esporte e nutrólogo (pós‑graduado)

Fígado · Câncer do aparelho digestivo · Cirurgia robótica disponível

Descobrir uma lesão no fígado levanta uma pergunta que vem antes de todas as outras: isso pode ser operado? A resposta depende de três coisas — que tipo de tumor é, onde ele está e quanto de fígado saudável vai sobrar. Explico aqui como essa avaliação é feita, o que a cirurgia envolve e por que a decisão é sempre tomada em equipe.

Dr. Mateus Antunes Nogueira
Jardim do consultório, São Paulo

Nem todo tumor do fígado é a mesma coisa

O fígado ocupa a parte superior direita do abdome e faz muitas coisas ao mesmo tempo: filtra o sangue que vem do intestino, produz a bile que ajuda a digerir gorduras e fabrica proteínas essenciais. Ele recebe sangue por duas vias — a artéria hepática e a veia porta —, e é essa dupla irrigação que explica por que tumores de outros órgãos do aparelho digestivo chegam ali com tanta frequência.

Os tumores malignos do fígado se dividem em dois grandes grupos. Os primários nascem no próprio órgão: o mais comum é o carcinoma hepatocelular, que surge quase sempre em fígados já doentes por cirrose, hepatite crônica ou doença gordurosa; o colangiocarcinoma intra-hepático nasce das vias biliares dentro do fígado. Os secundários, ou metástases, chegam de outro lugar — mais frequentemente do intestino grosso e do reto.

Essa distinção não é acadêmica: ela muda tudo no tratamento. Uma metástase de câncer colorretal em um fígado saudável e um carcinoma hepatocelular em um fígado cirrótico têm avaliações completamente diferentes, mesmo que a lesão tenha o mesmo tamanho na tomografia.

Tumores benignos — hemangiomas, adenomas, cistos, hiperplasia nodular focal — são achados frequentes em exames de imagem e, na maioria das vezes, apenas acompanhados. Eles têm uma página própria neste site e não devem ser confundidos com o que está descrito aqui.

Como se descobre se a lesão é operável

A avaliação começa por exames de imagem de qualidade: tomografia computadorizada com contraste em fases ou ressonância magnética com contraste hepatoespecífico. O que se procura não é apenas a lesão, mas a relação dela com as estruturas internas do fígado — as veias hepáticas, os ramos da veia porta e as vias biliares. É essa relação que define se é possível retirar o tumor com uma margem de tecido saudável ao redor.

A segunda pergunta é quanto de fígado vai sobrar. O órgão é dividido em oito segmentos, cada um com o seu próprio suprimento de sangue e drenagem de bile. Retirar uma parte é possível justamente por causa dessa arquitetura, mas o volume que permanece — o fígado remanescente — precisa ser suficiente para sustentar o organismo. Esse volume é medido nos exames de imagem, e a qualidade do tecido que sobra é avaliada por exames de sangue e pela história clínica.

A terceira pergunta é sobre o resto do corpo. Se a lesão hepática é metástase, é preciso saber se há doença em outros órgãos, como o tumor de origem está sendo tratado e como ele respondeu ao tratamento sistêmico. Um fígado tecnicamente operável em um paciente com doença disseminada e em progressão não costuma ser indicação cirúrgica.

Todas essas respostas vão para a reunião multidisciplinar, com oncologista clínico, radiologista, patologista e — quando o caso exige — hepatologista e radiologista intervencionista. É lá que o plano é fechado.

Quando a cirurgia entra no tratamento

  • Metástase de câncer colorretal

    É a situação mais frequente na prática. Cerca de metade dos pacientes com câncer colorretal desenvolve metástase no fígado ao longo da doença, e a ressecção das lesões hepáticas faz parte de um tratamento com objetivo de controle prolongado, combinado à quimioterapia.

  • Carcinoma hepatocelular

    A indicação leva em conta o tamanho e o número de lesões, a presença de invasão vascular e, sobretudo, o grau de comprometimento do restante do fígado. Em alguns casos, o transplante é a melhor opção, e não a ressecção.

  • Colangiocarcinoma intra-hepático

    A ressecção costuma exigir a retirada de um segmento maior do fígado associada à remoção dos gânglios linfáticos da região, com planejamento específico da margem cirúrgica.

  • Quando o remanescente é pequeno demais

    Existem estratégias para aumentar o fígado que vai sobrar antes de operar: embolização da veia porta do lado que será retirado ou hepatectomia em dois tempos. Uma lesão hoje irressecável nem sempre continua irressecável.

O que a evidência diz sobre metástase hepática de câncer colorretal

Uma revisão publicada em 2024 resume o cenário com clareza: aproximadamente metade dos pacientes com câncer colorretal desenvolve metástase no fígado, apenas cerca de um quarto dos casos é passível de ressecção no momento do diagnóstico, e a ressecção hepática alcança sobrevida de aproximadamente 50% em cinco anos. São números que justificam a insistência da equipe em avaliar cada fígado com atenção antes de concluir que nada pode ser feito.

A fração inicialmente irressecável também não é um beco sem saída. Uma coorte internacional com 510 pacientes com metástases hepáticas colorretais consideradas irressecáveis de início, tratados com hepatectomia em dois tempos, mostrou mortalidade em 90 dias de 4,9% e sobrevida global mediana de 39 meses. O que mais pesou no prognóstico não foi o tamanho ou a distribuição das lesões, mas a biologia do tumor e a resposta à quimioterapia.

A leitura prática disso é direta: a pergunta correta na consulta não é apenas quantas lesões existem, mas como a doença está se comportando ao longo do tempo. Por isso a decisão cirúrgica costuma ser tomada depois de um período de tratamento sistêmico, quando já se conhece essa resposta.

Como é a hepatectomia

Hepatectomia é o nome da retirada de uma parte do fígado. A extensão varia de um único segmento a todo um dos lados do órgão.

  1. 1

    Anestesia e preparo

    O procedimento é feito sob anestesia geral. A equipe de anestesia controla a pressão venosa durante a operação, o que reduz o sangramento no momento de seccionar o tecido do fígado.

  2. 2

    Inventário e ultrassom intraoperatório

    Toda a cavidade abdominal é examinada e um ultrassom colocado diretamente sobre o fígado mapeia as lesões e a relação delas com os vasos. É o exame mais preciso disponível nesse momento e pode mudar o plano cirúrgico.

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    Controle vascular

    Os vasos que irrigam a parte a ser retirada são identificados e controlados, o que define a linha por onde o órgão será dividido.

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    Secção do tecido hepático

    O fígado é dividido na linha planejada, com selamento dos pequenos vasos e ductos biliares encontrados. É a etapa mais delicada da operação.

  5. 5

    Revisão e fechamento

    A superfície de corte é revisada para sangramento e vazamento de bile antes do fechamento. A parte saudável que permanece começa a se regenerar nos dias seguintes.

A via de acesso na cirurgia do fígado

A cirurgia robótica é uma modalidade minimamente invasiva regulamentada pela Resolução CFM nº 2.311/2022. No fígado, o desafio é operar rente a vasos calibrosos controlando o sangramento — e é aí que a estabilidade dos instrumentos e a visão tridimensional contam mais.

  • Visão tridimensional ampliada das estruturas vasculares e biliares dentro do fígado.
  • Instrumentos articulados úteis sobretudo nos segmentos posteriores e superiores, de acesso mais difícil.
  • Metanálise de estudos pareados descreve menor sangramento, menor taxa de conversão e maior taxa de margem livre em comparação com a laparoscopia.
  • Nem toda lesão tem indicação para a via minimamente invasiva: tumores volumosos, invasão vascular ou cirurgias prévias podem tornar a via convencional a escolha mais segura.
  • A conversão para cirurgia convencional durante o procedimento é sempre uma possibilidade prevista, e é uma decisão de segurança.

Robótica, laparoscópica ou convencional na ressecção hepática

As três vias realizam a mesma ressecção. A tabela reúne o que as metanálises de estudos pareados descrevem sobre cada acesso.

Tabela 1. Robótica, laparoscópica ou convencional na ressecção hepática
CritérioRobóticaLaparoscópicaConvencional
Acesso ao abdomePequenas incisões com instrumentos articulados e visão tridimensional.Pequenas incisões com instrumentos retos.Incisão ampla no andar superior, com afastadores.
Sangramento durante a operaçãoMenor do que na laparoscopia nos estudos pareados agregados.Referência de comparação nas metanálises.Variável com a extensão da ressecção.
Margem livre de tumor (R0)Taxa de R0 maior do que a laparoscópica nos estudos pareados agregados.Referência de comparação.Padrão histórico de referência.
Conversão para cirurgia convencionalMenor taxa, com a diferença mantida nas hepatectomias maiores.Referência de comparação.Não se aplica.
Lesões de acesso difícilMenos sangramento, menos transfusões e menor conversão nessa localização.Tecnicamente difíceis pelo ângulo dos instrumentos retos.Alcançadas por incisão ampla e mobilização do fígado.

Comparação de propriedades descritas na literatura; não é promessa de resultado individual. A via é definida caso a caso.

Riscos, limites e a recuperação

As duas preocupações centrais da cirurgia do fígado são o sangramento durante a ressecção e a capacidade do fígado remanescente de sustentar o organismo depois dela. As complicações mais relevantes são o vazamento de bile pela superfície de corte, coleções de líquido ou infecção no espaço deixado pela ressecção e, mais raramente, a insuficiência do fígado remanescente. Nenhum procedimento tem resultado assegurado.

O tempo de internação varia com a extensão da retirada. Ressecções menores por via minimamente invasiva costumam permitir alta em poucos dias; hepatectomias maiores exigem observação mais prolongada, com acompanhamento diário dos exames que mostram como o fígado remanescente está trabalhando.

A regeneração começa nos primeiros dias e continua por semanas. Na maioria dos casos não há dieta restritiva permanente. Levantar da cama e caminhar cedo faz parte do tratamento e reduz o risco de complicações respiratórias e de trombose. As orientações de retorno ao trabalho e ao esforço físico são individualizadas na consulta.

Quando a ressecção fez parte do tratamento de um câncer, o seguimento com exames de imagem e o acompanhamento com o oncologista clínico continuam segundo o plano definido pela equipe. Recidiva no fígado, quando ocorre, nem sempre significa fim das opções cirúrgicas — em casos selecionados, uma nova ressecção ou uma ablação podem ser indicadas.

Onde a cirurgia é realizada

A ressecção hepática exige centro cirúrgico com plataforma robótica, ultrassom intraoperatório, banco de sangue e unidade de terapia intensiva. Opero nos hospitais abaixo, em São Paulo, todos com sistema robótico da Vinci Xi disponível.

  • Hospital Sírio-Libanês

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • Hospital Vila Nova Star

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • HCor

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • Hospital São Camilo Pompeia

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • Hospital São Luiz Morumbi

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • Hospital São Luiz Itaim

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

Consultório: Oxy Recovery — Av. República do Líbano, 577, Jardim Paulista, São Paulo.

Perguntas frequentes

Metástase no fígado significa que não há mais o que fazer?

Não. No câncer colorretal, a retirada das metástases hepáticas faz parte de um tratamento com objetivo de controle prolongado da doença, e a literatura descreve sobrevida de aproximadamente 50% em cinco anos após a ressecção. A avaliação precisa ser feita por uma equipe que opere fígado, e não descartada de saída.

E se disserem que o meu caso é irressecável?

Vale entender por qual motivo. Se for por fígado remanescente insuficiente, existem estratégias para aumentá-lo antes de operar, como a embolização da veia porta e a hepatectomia em dois tempos. Se for por doença disseminada ou por condições clínicas, o caminho é outro. Uma segunda avaliação em serviço com cirurgia hepática é razoável.

É possível viver bem depois de retirar parte do fígado?

Sim. O fígado tem capacidade de regeneração, e a parte saudável que permanece tende a assumir as funções do órgão ao longo das semanas. O que define a segurança da operação é o volume e a qualidade do fígado que vai sobrar, medidos antes da cirurgia.

Todo tumor do fígado pode ser operado?

Não. A possibilidade depende do tipo de tumor, da localização em relação aos vasos, da saúde do restante do fígado e do estado da doença no resto do corpo. Em algumas situações, o transplante, a ablação ou o tratamento sistêmico são melhores opções do que a ressecção.

Por que preciso fazer quimioterapia antes de operar o fígado?

Em metástases de câncer colorretal, o tratamento sistêmico permite observar como a doença se comporta ao longo do tempo. Essa resposta é um dos fatores prognósticos mais fortes e ajuda a definir o momento certo da cirurgia. A sequência é decidida pela equipe multidisciplinar.

Qual a diferença entre tumor primário e metástase no fígado?

O tumor primário nasce no próprio fígado, como o carcinoma hepatocelular, e costuma surgir em órgãos já comprometidos por cirrose ou hepatite crônica. A metástase chegou de outro órgão, mais comumente do intestino grosso ou do reto. As duas situações têm avaliações e tratamentos diferentes.

Fundamentação científica

As afirmações desta página são fundamentadas em literatura científica indexada no PubMed. Abaixo, as fontes e o que cada uma sustenta.

  1. [1]

    Laparoscopic versus open resection of hepatocellular carcinoma in patients with cirrhosis: meta-analysis.

    Kabir T, et al., Br J Surg, 2021

    Fundamenta: Metanalise de 11 estudos (1618 pacientes) com cirrose e carcinoma hepatocelular indica que a ressecao hepatica laparoscopica esta associada a melhores desfechos perioperatorios, com menor sangramento, menos complicacoes e menor tempo de internacao.

    PubMed (PMID 34757385)DOI 10.1093/bjs/znab376

  2. [2]

    Laparoscopic Versus Open Major Hepatectomy for Hepatocellular Carcinoma: A Meta-Analysis.

    Chen K, et al., Surg Laparosc Endosc Percutan Tech, 2018

    Fundamenta: Metanalise de 8 estudos (780 pacientes) indica que a hepatectomia maior laparoscopica para carcinoma hepatocelular pode ser realizada com seguranca semelhante a aberta, associada a menor sangramento e menor morbidade pos-operatoria, sem diferenca em margem ou sobrevida de longo prazo.

    PubMed (PMID 30180140)DOI 10.1097/SLE.0000000000000567

  3. [3]

    Liver Transplantation for Colorectal Liver Metastases.

    Schepers EJ, et al., Surg Clin North Am, 2024

    Fundamenta: Revisao sobre metastases hepaticas de cancer colorretal: cerca de metade dos pacientes com cancer colorretal desenvolve metastase no figado, apenas cerca de um quarto dos casos e ressecavel de inicio, e a ressecao hepatica alcanca sobrevida de aproximadamente 50% em cinco anos. Fundamenta a pergunta central da pagina: quando a lesao do figado e operavel.

    PubMed (PMID 37953038)DOI 10.1016/j.suc.2023.08.003

  4. [4]

    First Long-term Oncologic Results of the ALPPS Procedure in a Large Cohort of Patients With Colorectal Liver Metastases.

    Petrowsky H, et al., Ann Surg, 2020

    Fundamenta: Coorte internacional de 510 pacientes com metastases hepaticas colorretais inicialmente consideradas irressecaveis, tratados por hepatectomia em dois tempos (ALPPS): mortalidade em 90 dias de 4,9% e sobrevida global mediana de 39 meses, com a biologia do tumor e a resposta a quimioterapia como fatores prognosticos independentes. Fundamenta a explicacao de que um figado remanescente insuficiente pode ser aumentado antes da ressecao e de que a decisao e multidisciplinar.

    PubMed (PMID 32833765)DOI 10.1097/SLA.0000000000004330

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Especialidade registrada no CREMESP: Cirurgia do Aparelho Digestivo (RQE 46345). Conteúdo informativo; não substitui consulta médica. Nenhum procedimento tem resultado garantido.

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