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Esofagectomia robótica em São Paulo

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Dr. Mateus Antunes Nogueira · CRM‑SP 97.070 · Cirurgião do Aparelho Digestivo (RQE 46345) · médico do esporte e nutrólogo (pós‑graduado)

Procedimento · Esôfago · Técnica robótica

A esofagectomia é a retirada cirúrgica da parte do esôfago onde está o tumor, com reconstrução do caminho do alimento. É uma das operações mais complexas do aparelho digestivo, e a via robótica é uma das formas de realizá-la. Explico aqui, em linguagem direta, o que a cirurgia envolve, quando ela entra no tratamento, quais são os riscos reais e como é a recuperação.

Dr. Mateus Antunes Nogueira
Jardim do consultório, São Paulo

O que é a esofagectomia

O esôfago é o tubo muscular que leva o alimento da garganta até o estômago. Ele atravessa o pescoço e o tórax, passa por trás do coração e dos pulmões e termina logo abaixo do diafragma, o músculo que separa o tórax do abdome. Essa localização explica por que a cirurgia do esôfago é diferente de quase todas as outras do aparelho digestivo: para alcançá-lo é preciso trabalhar em duas cavidades, o abdome e o tórax.

A esofagectomia é a retirada do segmento do esôfago acometido pelo tumor, junto com os gânglios linfáticos da região — pequenas estruturas de defesa do organismo por onde a doença pode se espalhar e que precisam ser analisados pelo patologista. Retirado o segmento doente, o trânsito do alimento precisa ser reconstruído: na maioria das vezes o estômago é modelado em forma de tubo, levado até o tórax e ligado à porção do esôfago que permaneceu. Essa emenda entre os dois órgãos chama-se anastomose.

A técnica mais usada quando o tumor está no terço inferior do esôfago ou na junção com o estômago é a chamada Ivor Lewis, que combina um tempo abdominal e um tempo torácico do lado direito, com a anastomose feita dentro do tórax. Quando o tumor está mais alto, pode ser necessária uma abordagem em três campos, que acrescenta um acesso pelo pescoço. A escolha entre elas depende de onde está o tumor e da avaliação da equipe.

Quando toda a operação — o tempo do abdome e o tempo do tórax — é feita por pequenas incisões, com a plataforma robótica comandando a câmera e os instrumentos, ela é chamada na literatura de esofagectomia minimamente invasiva assistida por robô, ou RAMIE, na sigla em inglês.

Quando a esofagectomia entra no tratamento

A cirurgia quase nunca é o primeiro e único passo. O plano é montado por uma equipe multidisciplinar — cirurgião, oncologista clínico, radioterapeuta, endoscopista, radiologista, patologista, nutricionista — a partir do estadiamento, que é o mapeamento da extensão da doença.

  • Tumor localizado e ressecável

    Quando a doença está restrita ao esôfago e aos gânglios da região, e não há sinais de disseminação a distância, a retirada cirúrgica pode fazer parte do plano de tratamento.

  • Depois do tratamento inicial

    Na maior parte dos casos localmente avançados, quimioterapia e radioterapia são feitas antes da operação. A cirurgia acontece algumas semanas depois, quando o organismo se recuperou desse tratamento.

  • Condições clínicas para uma cirurgia de grande porte

    A avaliação pesa a reserva respiratória e cardíaca, o estado nutricional e as doenças associadas. Preparar o paciente antes da operação faz parte do tratamento, não é um detalhe.

  • Decisão tomada em conjunto

    A indicação, o momento e a via de acesso são discutidos na equipe e conversados com você e com a sua família, com os riscos e as alternativas apresentados de forma clara.

Por que a via robótica ajuda nesta operação em particular

A cirurgia robótica é uma modalidade de cirurgia minimamente invasiva regulamentada pela Resolução CFM nº 2.311/2022. Opero sentado a um console que comanda braços articulados, com visão tridimensional ampliada e instrumentos que articulam como um punho e filtram o tremor das mãos. O robô não opera sozinho: quem opera é o cirurgião, o tempo todo.

  • O mediastino — o espaço entre os pulmões, onde corre o esôfago — é estreito, profundo e cercado por estruturas nobres. A visão tridimensional ampliada muda a leitura anatômica desse espaço.
  • A dissecção dos gânglios linfáticos ao longo do esôfago e junto aos nervos laríngeos exige movimentos finos e estáveis, que os instrumentos articulados facilitam.
  • A anastomose entre o estômago e o esôfago é feita dentro do tórax, num ângulo desconfortável para os instrumentos retos da laparoscopia convencional.
  • As incisões pequenas evitam o afastamento das costelas, que é uma das principais fontes de dor da toracotomia clássica.
  • A escolha da via — robótica, laparoscópica, híbrida ou convencional — é individual: nem todo paciente tem indicação para a via robótica.

Como a cirurgia é feita, etapa por etapa

A descrição abaixo corresponde à técnica de Ivor Lewis por via robótica. Cada caso tem particularidades, que explico individualmente na consulta.

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    1 · Anestesia e preparo

    O procedimento é feito sob anestesia geral, com um tubo que permite ventilar um pulmão de cada vez durante o tempo torácico. A equipe de anestesia acompanha cada etapa e o controle da dor começa ainda no centro cirúrgico.

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    2 · Tempo abdominal

    Por pequenas incisões no abdome, o estômago é liberado com cuidado para preservar a artéria que vai nutri-lo depois de subir para o tórax, e os gânglios linfáticos do andar superior do abdome são retirados.

  3. 3

    3 · Confecção do tubo gástrico

    O estômago é modelado em um tubo estreito e longo, que substituirá o segmento retirado do esôfago. É esse tubo que fará o alimento chegar novamente ao aparelho digestivo.

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    4 · Tempo torácico

    Por incisões entre as costelas do lado direito, sem afastá-las, o esôfago é liberado do mediastino junto com os gânglios da região e o segmento com o tumor é retirado.

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    5 · Anastomose e conferência

    O tubo gástrico é ligado ao esôfago remanescente dentro do tórax. A emenda é conferida, drenos são posicionados e as incisões são fechadas.

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    6 · Pós-operatório imediato

    A primeira fase da recuperação costuma acontecer em ambiente de cuidados intensivos, com a equipe acompanhando de perto a respiração, a dor e a cicatrização.

Robótica, laparoscópica ou convencional: o que muda de verdade

As três vias realizam a MESMA operação e retiram a mesma doença. O que muda é o acesso — e, com ele, o traumatismo da parede do tórax e do abdome. A tabela resume as diferenças descritas na literatura citada ao final desta página.

Tabela 1. Robótica, laparoscópica ou convencional: o que muda de verdade
CritérioRobóticaLaparoscópicaConvencional
Acesso ao tóraxPequenas incisões entre as costelas, com instrumentos articulados e visão tridimensional.Pequenas incisões entre as costelas, sem afastá-las, com instrumentos retos.Toracotomia: incisão maior, com afastamento das costelas.
Visão do campo operatórioImagem tridimensional ampliada, controlada pelo próprio cirurgião no console.Imagem em duas dimensões numa tela, com ampliação.Visão direta, tridimensional, com a limitação de profundidade do mediastino.
Dissecção fina e sutura em profundidadeInstrumentos que articulam como um punho, com filtro de tremor.Limitada pelos instrumentos retos em ângulos fechados.Depende do acesso obtido pelo afastamento das costelas.
Complicações cirúrgicas no ensaio randomizado ROBOT59% dos pacientes, com menos complicações pulmonares e cardíacas.Não comparada nesse ensaio específico.80% dos pacientes com alguma complicação relacionada à cirurgia.
Tempo de cirurgiaMais longo, sobretudo na fase inicial de implantação de um programa.Intermediário.Habitualmente o mais curto dos três.
Resultado oncológicoComparável ao padrão convencional no seguimento mediano de 40 meses do ensaio ROBOT.Comparável ao padrão convencional nos estudos disponíveis.Padrão histórico de referência.

Comparação de propriedades técnicas descritas na literatura; não é promessa de resultado individual. A via de acesso é definida caso a caso, e a conversão para cirurgia convencional durante o procedimento é sempre uma possibilidade prevista.

Os riscos, ditos com todas as letras

A esofagectomia é uma cirurgia de grande porte, e seria desonesto apresentá-la de outra forma. Ela é feita em duas cavidades do corpo, em pacientes que muitas vezes chegaram até ali depois de quimioterapia e radioterapia. Nenhum procedimento tem resultado assegurado, e a decisão de operar sempre pesa benefício contra risco, caso a caso.

A complicação mais temida é a falha de cicatrização da emenda entre o estômago e o esôfago, a chamada fístula da anastomose. Quando acontece, pode exigir drenagem, endoscopia com colocação de prótese, jejum prolongado ou nova operação. Complicações respiratórias — pneumonia e derrame ao redor do pulmão — também são frequentes, e é justamente por isso que a preparação respiratória antes da cirurgia e o estímulo para levantar da cama cedo fazem tanta diferença.

Outros pontos que discuto abertamente na consulta: rouquidão temporária ou persistente por irritação do nervo que comanda as cordas vocais; dificuldade transitória para engolir por estreitamento da anastomose, geralmente resolvida com dilatação endoscópica; refluxo do conteúdo do tubo gástrico, que costuma exigir mudanças de hábito como dormir com a cabeceira elevada; e alterações do esvaziamento do estômago, que podem obrigar a fracionar as refeições.

Existe também a possibilidade de a operação começar por via robótica e ser convertida para cirurgia convencional durante o procedimento. Isso não é um erro nem um imprevisto: é uma decisão de segurança, prevista desde o início, quando a anatomia ou o achado do momento assim exigem.

A recuperação, com expectativas realistas

A internação após uma esofagectomia é mais longa do que a de outras cirurgias do aparelho digestivo, e parte dela costuma ocorrer em ambiente de cuidados intensivos. O tempo exato varia com o caso e com a evolução de cada pessoa; prefiro combinar isso individualmente a repetir médias que podem não ser as suas.

A alimentação volta em etapas. Começa por líquidos, avança para consistências pastosas e só depois retorna aos alimentos habituais, sempre em porções menores e mais frequentes do que antes. Em alguns casos, uma sonda de alimentação colocada no intestino durante a cirurgia sustenta a nutrição enquanto a emenda cicatriza — é um recurso temporário e planejado, não um sinal de que algo deu errado.

A convivência com o novo trajeto do alimento exige adaptação: comer devagar, mastigar bem, evitar deitar logo após as refeições, elevar a cabeceira da cama. O acompanhamento nutricional é parte do tratamento, não um acessório. Um ensaio randomizado multicêntrico mostrou que a via minimamente invasiva reduz a perda de qualidade de vida nas primeiras semanas e o aumento de dor a longo prazo, e que essa diferença é explicada principalmente pela redução das complicações.

O seguimento depois da alta é contínuo e multidisciplinar, com consultas e exames combinados com o oncologista clínico. Todas as orientações de retorno ao trabalho e à atividade física são definidas na consulta, de acordo com a sua evolução.

Onde a cirurgia é realizada

A esofagectomia exige estrutura hospitalar de alta complexidade, com centro cirúrgico preparado para cirurgia robótica, unidade de terapia intensiva e equipes de endoscopia, radiologia intervencionista e nutrição disponíveis. Opero nos hospitais abaixo, em São Paulo, todos com sistema robótico da Vinci Xi disponível.

  • Hospital Sírio-Libanês

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • Hospital Vila Nova Star

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • HCor

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • Hospital São Camilo Pompeia

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • Hospital São Luiz Morumbi

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

  • Hospital São Luiz Itaim

    São Paulo — SP, Sistema robótico da Vinci Xi

Consultório: Oxy Recovery — Av. República do Líbano, 577, Jardim Paulista, São Paulo.

Perguntas frequentes

A esofagectomia robótica é uma cirurgia diferente da esofagectomia convencional?

Não. É a mesma operação — a mesma retirada do esôfago, dos mesmos gânglios e a mesma reconstrução — feita por outra via de acesso. O que muda é o traumatismo da parede do tórax e do abdome para chegar até lá, não o que é retirado nem o objetivo oncológico do procedimento.

Preciso fazer quimioterapia ou radioterapia antes de operar?

Na maior parte dos casos localmente avançados, sim. Um ensaio randomizado com dez anos de seguimento mostrou benefício de sobrevida quando a quimiorradioterapia é feita antes da cirurgia. A sequência do tratamento é definida pela equipe multidisciplinar a partir do estadiamento e das suas condições clínicas.

Vou conseguir comer normalmente depois da cirurgia?

A reconstrução devolve o caminho do alimento, e a maioria das pessoas volta a se alimentar por via oral. Mas há adaptação: porções menores, refeições mais frequentes, mastigação mais lenta e cuidado para não deitar logo após comer. O acompanhamento nutricional faz parte do tratamento desde antes da operação.

Quanto tempo fico internado?

É uma internação mais longa do que a de outras cirurgias do aparelho digestivo, com uma primeira fase em ambiente de cuidados intensivos. O tempo depende do caso e da evolução individual. Prefiro combinar essa expectativa com você na consulta, olhando a sua situação, em vez de citar uma média que pode não se aplicar.

O robô opera sozinho?

Não. A plataforma robótica reproduz exatamente os movimentos que comando no console, com filtro de tremor e escala ajustável. Estou no controle do procedimento do começo ao fim, com a equipe cirúrgica junto ao paciente durante toda a operação.

O que é a técnica de Ivor Lewis?

É a esofagectomia que combina um tempo no abdome e um tempo no tórax direito, com a emenda entre o estômago e o esôfago feita dentro do tórax. É a técnica mais usada para tumores do terço inferior do esôfago e da junção com o estômago, e pode ser realizada por via robótica, laparoscópica ou convencional.

Fundamentação científica

As afirmações desta página são fundamentadas em literatura científica indexada no PubMed. Abaixo, as fontes e o que cada uma sustenta.

  1. [1]

    Robot-assisted Minimally Invasive Thoracolaparoscopic Esophagectomy Versus Open Transthoracic Esophagectomy for Resectable Esophageal Cancer: A Randomized Controlled Trial.

    van der Sluis PC, et al., Ann Surg, 2019

    Fundamenta: Ensaio randomizado (ROBOT trial, 112 pacientes) comparando a esofagectomia toracolaparoscopica assistida por robo (RAMIE) com a esofagectomia aberta transtoracica: menos complicacoes cirurgicas gerais (59% contra 80%), menos complicacoes pulmonares e cardiacas, menor sangramento e menor dor pos-operatoria, com desfechos oncologicos comparaveis em seguimento mediano de 40 meses.

    PubMed (PMID 30308612)DOI 10.1097/SLA.0000000000003031

  2. [2]

    Short-term outcomes of robot-assisted versus conventional minimally invasive esophagectomy: A propensity score-matched study via a nationwide database.

    Nishigori T, et al., Ann Gastroenterol Surg, 2024

    Fundamenta: Coorte nacional japonesa com pareamento por escore de propensao (1.092 pacientes): quando comparada a esofagectomia minimamente invasiva convencional, a via robotica teve taxas semelhantes de complicacoes graves e de mortalidade operatoria, com tempo cirurgico mais longo e maior sangramento na fase inicial de implantacao. Fundamenta a redacao sobria de que a via robotica e uma alternativa, nao uma superioridade automatica.

    PubMed (PMID 39759988)DOI 10.1002/ags3.12854

  3. [3]

    Robotic Versus Conventional Minimally Invasive Esophagectomy for Esophageal Cancer: A Meta-analysis.

    Zhang Y, et al., Ann Surg, 2023

    Fundamenta: Metanalise de 18 estudos (2932 pacientes) indica que a esofagectomia minimamente invasiva assistida por robo e alternativa segura e factivel a esofagectomia minimamente invasiva convencional, com desfechos perioperatorios comparaveis e menor incidencia de pneumonia.

    PubMed (PMID 36538615)DOI 10.1097/SLA.0000000000005782

  4. [4]

    Robot-Assisted Minimally Invasive Esophagectomy versus Open Esophagectomy for Esophageal Cancer: A Systematic Review and Meta-Analysis.

    Esagian SM, et al., Cancers (Basel), 2022

    Fundamenta: Revisao sistematica e metanalise de 10 estudos indica que a esofagectomia minimamente invasiva assistida por robo esta associada a menores taxas de complicacoes pulmonares e de ferida, menor sangramento e menor tempo de internacao em comparacao com a esofagectomia aberta.

    PubMed (PMID 35804949)DOI 10.3390/cancers14133177

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